Viramos quatro – pra valer! – e voltamos a ser três

A vida já fica de cabeça pra baixo quando a gente planeja alguma coisa, corre atrás dela, se organiza, se prepara e ela não acontece; mas pior que isso é quando ela acontece…. e desacontece… e acontece de novo… e desacontece… e de novo, três vezes. E em cada uma dessas vezes ela acontece um pouquinho mais, fazendo você pensar que agora vai e mudar seus planos de vida pra se organizar mais ainda ao redor daquilo, só pra depois ter que desplanejar tudo. Foi isso que aconteceu aqui em casa, quando a gente desistia do plano A e começava a trabalhar no plano B o plano A voltava e a gente desistia do plano B… foi assim durante two f*ing years.

Já falei em outros posts que uma lição aprendida e reaprendida quando perdemos um bebê é a noção de que não controlamos nada nesse mundo… então numa gravidez pós-aborto a gente se agarra em outras coisas – intuição, sintomas, estatísticas, ultrassonografias etc – pra não ficar na paranoia de que qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento.
Cada marco alcançado é uma conquista, uma mistura de alívio, encantamento, esperança mas também a expectativa quase imediata do próximo marco, se ele também vai ser alcançado ou não.

É o resultado positivo no teste de farmácia – depois de tantos meses e tantos “quases” -;
é a primeira imagem daquele feijãozinho de só 5 semanas com uma luzinha piscando no meio e o tumtum-tumtum-tumtum bem rápido em alto e bom som;
são os resultados dos quinhentos exames de sangue dizendo que está tudo em ordem;
é o outro ultrassom, às 9 semanas, que não seria necessário pra alguém que nunca abortou mas que serviu pra me tranquilizar e ver que tudo seguia bem e o bebê continuava crescendo firme e forte;
é o marco incrível de alcançar, enfim, as tão esperadas 12 semanas, saber que o risco de aborto estava drasticamente reduzido a partir dali e ver na tela da ecografia um bebezinho todo formado, com pernas, braços, 20 dedinhos, nariz, olhos, boca e um coração que continuava batendo forte, soluçando, chupando o dedo, deitando de ladinho, cruzando as perninhas… saudável! .. e achar aquela a imagem mais linda da vida e cair de amores por aquele bebê que só agora parecia ter se tornado real;
é o momento que eu tanto esperei: poder contar pro filho mais velho que ele vai ganhar um irmãozinho bebê, mostrar as fotos da eco e explicar desde o que é um irmão até porque tem um bebê dentro da minha barriga e então receber um beijo e um abraço na barriga do menino de 3 anos mais doce que já existiu;
é começar a sentir o bebê mexer, saber de que lado ele está, se está dormindo ou acordado, e colocar a mão do pai na barriga pra ver se ele consegue sentir também;
é sentir o próprio corpo mudando, todos os sintomas e desconfortos do início, depois a barriga que já não dá mais pra esconder, as roupas que não servem mais e os peitos que pareciam que nunca mais parariam de aumentar e até já começavam a querer produzir leite;
é se empolgar com o dia das mães e com a cena linda do mais velho “lendo” um livro pro irmão antes de dormir com a foto do ultrassom do lado e, sem pensar duas vezes, divulgar a notícia pra todos os amigos e família.

Theo + baby pic

barriga

Lá dentro em algum lugar algo me dizia pra esperar até 20 semanas, lá nesse lugar algo sempre me martelou 20 semanas e não 12, desde o primeiro dia, mas com 15 e com tudo indo tão bem eu achei que era besteira, paranoia, trauma que eu precisava superar.
Por volta de 16 semanas eu comecei a entrar na neura, já não sabia dizer se ainda sentia o bebê mexendo ou não e tentava me convencer que ainda era cedo demais pra sentir nitidamente – com o Theo eu só comecei a sentir depois de 17 semanas -, tinha medo de não ouvir o coração na consulta seguinte com a midwife, enquanto o Felipe tentava me tranquilizar dizendo que estava indo tudo superbem, completamente diferente das outras vezes que já tinha sinais que algo estava errado… eu tentava acreditar nele.

Um dia antes de completar 17 semanas foi a tal consulta e, como eu temia, não conseguimos encontrar os batimentos cardíacos, a própria midwife (que é a mesma das outras vezes – minha vizinha e minha amiga) ligou pro hospital pra marcar um ultrassom urgente, tentou me tranquilizar dizendo que podia ser só a posição da placenta interferindo no som, mas eu vi na expressão do rosto dela um ar de preocupação que eu nunca tinha visto antes, os olhos dela pareciam dizer com todas as letras I’m so so sorry antes de me dar um abraço de tchau e foi ali que minha ficha caiu.

Há tempos eu pensava em levar o Theo junto pra assistir uma ecografia e entender um pouco melhor tudo que a gente explicava pra ele  t o d o . s a n t o . d i a , mas acabei tendo que levar justo na que eu preferia que ele não tivesse ido. Na hora ele não entendeu muito o que estava acontecendo e só quando chegamos em casa eu contei pra ele que naquele exame a gente tinha visto que o bebezinho da minha barriga tinha morrido, que ele não ia mais nascer na primavera (como ele estava esperando). Ele respondeu “não, não morreu” e foi brincar de Lego, eu não insisti.
*acho que vale a pena depois escrever um post só sobre o Theo no meio disso tudo então nem vou me prolongar aqui.

No dia seguinte tivemos uma consulta bem longa com o obstetra e mais uma conversa com a midwife. Era sexta-feira, no domingo eu iria pro hospital pra me internar, dormiria lá pra na segunda-feira bem cedo começar o procedimento de indução do parto. Como da outra vez meu corpo continuava agindo como se nada tivesse acontecido, eu continuava grávida igual e não estava disposta – nem era aconselhável – esperar entrar em trabalho de parto naturalmente. O médico me garantiu que fariam de tudo pra que eu não sofresse ainda mais, sem um bebê vivo eu poderia tomar remédios fortes contra dor e, se fosse o caso, uma anestesia também. Mesmo assim eu sabia que precisaria de forças pra passar por isso, eu tinha 2 dias pra me preparar.

A próxima notícia que recebi foi dos meus pais – minha mãe tinha comprado passagens pro primeiro voo disponível do Brasil pra Nova Zelândia. Eu não consegui nem dizer que ela era doida de estar fazendo isso, sabia que se fosse algo acontecendo com o Theo eu faria exatamente a mesma coisa. Jamais vou ter como agradecer tudo que ela fez pela gente.
Meu irmão, que mora na Índia, coincidentemente estava na Austrália e também já procurava passagens pra vir pra cá. Tivemos uma mini reunião de família, na minha casa do outro lado do mundo, algo que eu sempre sonhei em ter mas jamais nessas circunstâncias. Achei ainda mais triste ter que envolvê-los nessa situação, queria que a vinda deles pra cá fosse algo feliz e não triste e difícil assim.

Screen Shot 2015-07-08 at 2.31.15 pm

Domingo bem cedo minha mãe chegou, ao meio-dia dei entrada no hospital e passei a tarde toda lá com ela, fazendo quinhentos exames e tomando o primeiro remédio do processo de indução do parto. Voltei pra casa, jantei, dei banho e coloquei o Theo na cama explicando que quando ele acordasse a vovó ia cuidar dele e voltei pro hospital com o Felipe. Dormimos lá, quer dizer, o Felipe dormiu lá, eu fiquei acordada a maior parte da noite…

Às 6 da manhã a enfermeira chegou com a primeira dose dos remédios. Eu tomaria várias doses ao longo do dia, uma a cada 3 horas, e estava torcendo pra que não precisasse ficar outro dia ainda lá. Tomei a segunda dose às 9am e às 10 eu já estava sentindo algumas dores parecidas com cólica menstrual, as dores foram aumentando, percebi que as contrações estava bem regulares e comecei a cronometrar, avisei a enfermeira que chamou as midwives do hospital, elas vieram dar um oi e saíram. Ao meio-dia quando a enfermeira voltou com a terceira dose a dor das contrações já estava desesperadora e eu pedi uma injeção de petidina (ou dolantina, como é conhecido no Brasil), tomei o remédio, a injeção e ela saiu.

Nem deu tempo da injeção fazer efeito, 5 minutos depois senti outra contração absurdamente forte, gritei, me contorci e me desesperei quando senti o bebê já lá embaixo querendo sair.
Estávamos só eu e o Fe no quarto nessa hora, eu ainda estava vestida, ninguém pensou que seria assim tão rápido. Fiquei tensa, tentando não fazer força pra baixo pra ver se conseguia segurar o bebê lá dentro até a midwife chegar. Eu não queria que o Fe tivesse que passar por isso e fazer tudo sozinho, tanto eu quanto ele tínhamos decidido que não queríamos ver nem segurar o bebê – afinal ele já não estava mais ali, era só um corpinho, sem vida, e a gente preferia a lembrança do nosso bebezinho vivo, se mexendo, como vimos na tela do ultrassom; ficamos com medo de ficar muito impressionados com a imagem do/a nosso/a filhinho/a morto/a -, então fiquei muito preocupada com ele, que ficou perdido sem saber se corria buscar a midwife ou se ficava comigo pra segurar o bebê, por fim ele apertou o botão que chama a enfermeira e não saiu do meu lado, enquanto segurava minha mão disse que estava lá comigo e que se precisasse ele cuidaria de tudo, pra eu não me preocupar que estava tudo bem, ele faria. Num momento tão difícil ele conseguiu despertar em mim o mesmo amor infinito que eu senti no dia do parto do Theo; queria eu ter a força, resiliência e dedicação que ele tem.

Acho que nessa hora a injeção começou a fazer efeito porque tudo ficou mais tranquilo, meio nublado, meio em câmera lenta. As midwives chegaram, o Fe sentou na poltrona do meu lado, elas tiraram minha roupa, forraram a cama embaixo de mim e avisaram que quando eu sentisse outra contração podia fazer força. Eu fechei os olhos e empurrei, senti o bebê passando, “mais uma vez”, elas disseram, mantive os olhos fechados e na contração seguinte empurrei com mais força e senti o resto do corpinho passando inteiro, pequenino se comparado ao Theo mas muito maior do que eu achava que seria.
Sob efeito do remédio eu estava tranquila chapada, quase em estado meditativo, mantinha os olhos fechados, era hora de expulsar a placenta, empurrei com todas as forças pelo máximo de tempo que consegui – sabia que o maior risco desse procedimento era parte da placenta ficar lá dentro e ainda precisar ir pro centro cirúrgico pra uma curetagem -, mas saiu tudinho, ainda bem.
Não tinha mais dor, não tinha mais nada.

Pra não ver o bebê ainda fiquei com os olhos fechados mais alguns minutos enquanto as midwives cuidavam dele com o maior carinho. Eu só percebia os movimentos delas e ouvia o que elas diziam enquanto pegavam aquela criaturinha pequenina com delicadeza e arrumavam embrulhadinha numa cestinha artesanal – ipu taonga, que em Maōri significa recipiente de um tesouro ou item precioso. Ouvi uma delas dizendo que não conseguia dizer se era menino ou menina. Ouvi a outra dizendo “your baby has perfect little hands and feet“, numa tentativa de me encorajar a olhar pelo menos a mãozinha ou o pezinho dele. Eu só agradecia tentando sorrir e não dizia nada. Ouvi elas dizendo que deixariam a cestinha ali mais alguns minutos antes de enviar para autópsia (o que não podia demorar muito) e o Felipe respondendo que tudo bem, podiam levar, ele já tinha visto. Putz, então ele não conseguiu evitar de ver como ele queria, pensei, mas não falei nada nem me mexi, continuava ali ainda sob efeito do remédio. Ouvi elas limpando e arrumando tudo, depois dizendo que precisavam levar o bebê e que tinha corrido tudo bem, que eu poderia levantar quando quisesse e saindo do quarto pra não voltar mais.

Ficamos eu e o Felipe sozinhos, sem interferências, como há muito tempo não ficávamos. Passamos a tarde inteira lá esperando pela visita do médico obstetra que só se liberou pra vir falar com a gente no fim do dia. Entre algumas visitas da enfermeira que entrava no quarto de vez em quando, nós dois ficamos conversando.
A Clare (minha amiga/midwife) passou por lá pra nos dar um abraço – ela também tinha ficado a tarde de sábado inteira conversando com a gente e ainda comprou mil coisas pra levarmos pro hospital, desde várias comidas pro Fe até absorventes e revistas – gratidão eterna por tudo que ela fez pela gente.
No meio dessa espera liguei pra funerária, que já estava avisada, pra dizer que o parto já tinha terminado. Eles entrariam em contato com o hospital e tomariam conta de tudo – transporte e cremação do corpo – a partir dali.

Voltamos pra casa em tempo de jantar com minha mãe e com o Theo. Eu preocupada em colocá-lo pra dormir e tirar qualquer dúvida que ele pudesse ter de que eu continuava aqui pra cuidar dele e minha mãe aliviada por saber que tudo tinha terminado e me ver bem. Coisas de mãe.

O parto do dia 25 de maio me lembrou muito o parto do Theo, as sensações e os sentimentos, tudo tão intenso. Voltar pra casa e ter o corpo pronto pra amamentar mas não ter o bebê foi extremamente triste e difícil de superar. Não era só a ideia, a memória, os sentimentos, era também meu corpo, cada célula, me lembrando a todo momento o que estava acontecendo.

Mais tarde me bateu um arrependimento de não ter olhado o bebê, bem que o médico tinha me avisado que isso podia acontecer… chorei um monte por isso e o Fe tentava suprir essa falta me contando o que ele tinha visto… disse que não ficou chocado, que foi bom ter visto, que ele não olhou muito mas “era um bebezinho normal, pequenininho, perninhas, bracinhos, bumbumzinho.. tinha um pouquinho de cabelo..”… e até hoje eu fico tentando imaginar isso tudo. Já não me arrependo tanto, fiz o que achei que era melhor na hora, mas sinto falta de ter a lembrança visual que ele tem, ainda bem que ele pode me contar. Minha lembrança, incrivelmente nítida, é da sensação do corpinho dele passando quando saiu de dentro de mim.

Continuamos conversando, só nós dois, até de madrugada. Conversamos sobre o passado e sobre o futuro, sobre os próximos planos, sobre a gente, sobre a vida. Lembro de uma vez, quando ainda éramos namorados uns 14 anos atrás, que ele me deu um cd com um vídeo inspirador gravado e no cd ele escreveu “eu + você = vida“. Na época a gente não tinha a menor ideia e muito menos intenção de passar por tantas juntos. Só nesse dia, dia de encarar uma morte, eu entendi o que era essa vida. Nosso mundo tinha acabado de virar completamente de cabeça pra baixo de novo e nos víamos obrigados a desfazer refazer todos os nossos planos. Eu percebi que nesses dois anos eu já tinha deixado minha vida on hold por tempo demais, agora era hora de mudar.
Life changing, não é mesmo? Tá escrito ali no cabeçalho do blog. Só pra me relembrar que foi nisso que eu embarquei quando resolvi ter o primeiro filho, lá atrás.

Das coisas que a gente vive e das coisas que a gente conta

Relendo este blog agora parece que me tornei uma daquelas pessoas que ninguém mais quer ouvir suas histórias. Cá venho eu com mais uma história triste de mais uma gravidez perdida.
Cadê as histórias felizes? Meu último post já tem quase um ano e eu só apareço agora pra falar sobre outra tragédia…  Mas a verdade é que tenho pelo menos uns 5 rascunhos de histórias felizes.

Um dos rascunhos é de setembro do ano passado contando que a primavera tinha chegado aqui na roça e com ela tudo na minha vida tinha mudado, a tristeza tinha ido embora exatamente no mesmo dia que o inverno se foi e, como mágica, a casa se encheu de vida, luz e cor novamente!
Outro é da véspera de ano novo, uma reflexão cheia de esperança sobre o ano que terminava e o outro que começava em meio a um verão neozelandês inédito (pra mim) de 32 graus e mergulhos no rio dia após dia.
Outro deles falava do meu aniversário de casamento, em fevereiro, e de como eu tinha engravidado nesse dia… exatos 6 meses depois da curetagem do ano passado.
Outro era sobre os 3 anos do Theo – aliás, tem tanta tanta tanta coisa que eu já devia ter contado sobre ele que acabaram passando em branco! – e como eu fiz uma festa aqui em casa de aniversário + house warming e convidei todos os nossos amigos pra virem conhecer nossa casa “nova” mais de um ano depois de termos nos mudado.
E tinha também aquele post em que eu divulgava, radiante, a foto do/a mais novo/a integrante da família, ainda na barriga mas já com mais de 16 semanas, saracoteando aqui dentro e, portanto, sem tanto risco de sofrer um aborto espontâneo como das últimas duas vezes.

Mas nenhuma dessas histórias eu terminei de contar, talvez porque eu estivesse ocupada demais aproveitando os momentos de alegria e nunca conseguia concluir e revisar os textos a ponto de publicar. Nah, desculpinha esfarrapada essa de “estou muito ocupada vivendo“! A verdade é que eu devia ter publicado tudinho e me arrependo de não ter feito.
A próxima história triste, muito mais do que todas as anteriores, me ensinou isso: a vida acaba, às vezes cedo demais, e se a gente quer e pode fazer alguma coisa tem que fazer agora. Parece mais um cliché desses que a gente vê de monte por aí.. carpe diem bla bla bla, mas nada mais eficaz pra nos fazer entender o real significado disso do que perder um filho.

Meus amigos e minha família já conhecem essa história, eu não escrevi nada aqui mas todos esses rascunhos de textos que eu citei ali em cima deram um jeito de chegar ao Facebook de maneira bem resumida – pensando bem, nem tudo está perdido. heheh
Por isso lá eu também contei quando nosso/a bebê, que parecia tão saudável, nos deixou antes mesmo que tivéssemos qualquer chance de cuidar dele/a. E agora lá venho eu com outra história dessas que ninguém tá afim de ouvir.

Me identifiquei muito com um texto que li esses tempos e falava exatamente sobre isso. Assim como a autora, eu também já fui alguém que prefere não ouvir uma história triste, por não querer me impressionar ou por me entristecer por outra pessoa querida e não saber o que dizer. Mais ou menos como ela diz, agora eu estou do outro lado, a menção do meu bebê que morreu – e que eu tive que parir – é capaz de silenciar uma sala; eu sou a lembrança constante de como a vida – especialmente a de um bebê ainda no útero – é frágil. Nesse mesmo texto ela também tenta explicar por que, mesmo assim, ela ainda fala no assunto.
Aqui o texto original (em inglês): Why I Talk About My Stillbirth.
Eu só não me identifico com o quinto motivo da lista dela, mas todo o resto do texto podia ter sido escrito por mim.

Portanto, parafraseando mais um trecho dela, para aqueles que não suportam ouvir/ler essas histórias tristes, eu entendo – I really do! Mas para aqueles que suportam, obrigada pelo presente de continuarem me “ouvindo”, vocês fazem toda diferença!

No meio de um turbilhão de mudanças que estão acontecendo por aqui eu vou tentar achar um tempinho pra contar, nos próximos dias, tudo o que aconteceu – pelos mesmos motivos descritos naquele texto:
– Essa é a minha realidade – não falar de algo que está tão vivo nos meus pensamentos não me parece honesto e me isolaria ainda mais;
– O silêncio gera vergonha – esconder a perda de um bebê pode fazer uma mulher se sentir envergonhada, culpada e diminuída, também acredito que falar abertamente sobre isso deixa a mensagem clara de que não há nada pra se envergonhar;
– Escrever me ajuda a ver as coisas de fora e a processar tudo o que aconteceu/está acontecendo;
– Quero que outras saibam que não estão sozinhas – as palavras que mais me confortaram nos meus momentos mais difíceis foram daquelas que vieram me contar que também já passaram por isso; quem sabe falando sobre isso eu possa ajudar mais pessoas a perceberem que não estão isoladas justo nas horas que elas mais precisam de apoio.

E depois de tomar tanto na cabeça acho que eu enfim aprendi a lição e vou me empenhar mais pra tirar as próximas histórias felizes do rascunho também – antes que eu fique velhinha e perca a memória, volte pra ler o blog e pense que minha vida foi só desgraça quando, na verdade, às vezes até me belisco pra ver se não estou sonhando, de tão surrealmente boa que ela é. Pois… falando em beliscão e em choque de realidade…

35

“Você quer ter filhos?”, “Um dia, quem sabe..”, “Você vai querer ter mais de um?”, “Provavelmente sim”, “Então não deixe pra começar muito tarde”. Essa foi uma conversa que minha ginecologista teve comigo quando eu tinha uns 25 anos. Na época eu sequer conseguia me imaginar com filhos, nem mesmo casada ou levando uma vida muito rotineira, mas nunca me esqueci do que ela disse. Até então eu nunca tinha pensado nisso, no segundo filho. A gente tende a pensar em quando teremos o primeiro, que até perto dos 35 ainda é tranquilo esperar… mas e se quisermos ter mais de um?
Aos 25 eu imaginava que 28 poderia ser uma idade boa pra pensar em ter um filho, aos 28 achei que 30 sim seria melhor, aos 30 eu ainda não ouvia nenhum tictac e pensei que 32 talvez fosse ideal… ou que isso talvez não fosse pra mim, que iria continuar viajando pelo mundo e que instinto materno era algo que realmente não me pertencia. Aos 31 o instinto não perguntou se podia entrar nem tinha tictac ritimado, meu relógio biológico despertou num auto-falante mesmo sem estar programado.*
*na época escrevi mais sobre essa minha dúvida aqui:  Filhos ou não filhos? Eis a questão.

Eu sempre pensei que pra mim seria ou nenhum filho ou no mínimo dois. Não por mim, mas por ele. Acho que ter irmãos é algo muito importante na vida pra não se ter. Queria que meu filho tivesse a chance que eu tive, de ter alguém tão especial na sua vida como um irmão / uma irmã, ou mais de um. Quando enfim resolvi que sim, teria filhos, pensava em três, provavelmente porque eu tenho dois irmãos e tenho isso como exemplo da família perfeita; mas me contentaria com dois, entrando em um acordo com o maridex que acha três muito. Theo nasceu quando eu estava com 32 anos. Lembrava daquela conversa com a gineco e ficava feliz em pensar que ainda tinha tempo pra ter o segundo sem me preocupar. Fiquei mais feliz ainda quando engravidei e soube que meu segundo filho nasceria exatamente aos meus 35 anos, tudo conforme planejado…

A primeira lição que aprendemos com um aborto é que não controlamos absolutamente nada nessa vida. Ao menos não quando temos outros envolvidos e não é só o nosso livre-arbítrio que está apitando.
Naquela noite em que eu ainda me culpava e contava pro Felipe da morte do nosso bebê, ele disse, sabiamente mesmo no meio de toda a dor que ele também sentia, que não havia nada que a gente pudesse fazer; que teria sido assim independente do que eu fizesse… e que se fosse pra esse bebê continuar com a gente, teria continuado independentemente também. Era isso, o livre-arbítrio aqui não era nosso.

Ainda assim nas semanas seguintes eu conseguia achar um jeito de me culpar e joguei isso pra minha idade. Talvez agora, perto dos 35 anos, meus óvulos já não estejam mais bons o suficientes pra desenvolver um bebê saudável e daí a má formação de cromossomos. Eu pensava isso brevemente e logo pensava em todas as pessoas que conheço que tiveram filhos depois dos 35, que isso é só um número – cada um cada um, que há muito mais no milagre da vida do que óvulos e cromossomos… mas pensava.. e me culpava. Normal, né?

Eu acredito que nada na vida acontece por acaso, que tudo tem uma razão de ser. Acredito também que somos espíritos e vivemos nesse corpo material temporariamente; alguns mais tempo, outros menos. Hoje, com aquela nuvem cinza começando lentamente a se dissipar, posso ver com um pouco mais de clareza e já não penso que minha intuição de que dessa vez a gravidez era pra valer estava furada, lembrei que eu conseguia sentir mais alguém comigo… mas esse alguém ficou muito pouquinho… ainda não sei por que eu teria sido escolhida pra isso, ou por que ela demorou tanto (quase um ano e meio) pra chegar e logo nos deixou. Ainda tenho muitos por quês que minha consciência não consegue alcançar.

É incrível como nossos olhos vêem coisas diferentes dependendo das circunstâncias. Só quando dei um cachorrinho de presente pra minha mãe eu percebi a quantidade imensa de pet shops que tem em Curitiba, juro que antes eles não estavam ali! Agora eu vejo mulheres grávidas por todos os lados e, veja só!, a maioria já com um filho de 2 anos. São outras mães na escolinha do Theo, na aula de natação dele, são minhas amigas ou são mulheres anônimas no supermercado… parecem estar todas barrigudas esperando o segundo filho ou segurando um bebê no colo enquanto o mais velho grita “mommy mommy, look at me!” O meu mais velho não precisa gritar porque eu continuo sendo toda dele.
Estar vivendo há pouco tempo numa cidade minúscula do outro lado do mundo também ajuda pra que ele ganhe atenção quase exclusiva.

Em um dos panfletos que recebi no hospital dizia que as mulheres que sofrem miscarriage geralmente sentem-se muito sozinhas. Eu imagino que isso deva ser porque a maioria não divide o que aconteceu com outras pessoas, ou não encontra quem entenda a sua dor… no meu caso isso foi mais ao pé da letra. Em vários momentos a dor da solidão era ainda maior do que a dor da perda. Tudo que eu queria era uma melhor amiga que morasse bem pertinho de mim, pra sair tomar um café e papear enquanto as crianças brincavam; ou um domingo na casa dos meus pais, mas não tinha. Tive a sensação de que passei por toda a gravidez até o aborto sozinha; é claro que o Fe está sempre comigo mas tinha que se dividir entre trabalho, Theo e casa e parecia que era eu quem vivia e sentia tudo aquilo enquanto dava só as notícias depois pra ele.
Quantas vezes me perguntei what the hell eu estava fazendo aqui. Mas, pra falar a verdade, todo inverno eu me pergunto isso… na primavera passa.

Eu parei de nadar, parei de fazer yoga, parei de trabalhar, de estudar, parei de ouvir música e de ler livros. Cuidava e brincava com o Theo com o sorriso mais sincero no rosto, mas meu sorriso dormia também às 8pm. Mesmo que eu não conseguisse dormir antes das 4 da manhã.
Eu já não pensava mais tanto no bebê que tinha ido embora ou nos sonhos roubados, eu só estava triste. Mesmo rindo, mesmo amando muito e sendo muito amada, mesmo com toda beleza que tenho ao meu redor, naqueles minutos que o mundo parece parar um pouquinho pra depois dar play de novo eu só queria chorar. Percebi que os últimos muitos meses me transformaram em outra pessoa, percebi que eu gostava de tudo que me cercava, menos dessa pessoa nova. Aprendi que outra coisa que a gente não controla é depressão, e olha que ela acontece dentro da gente, assim como gravidez.
Acredito que tudo no mundo só existe com equilíbrio. Talvez essa fase seja o meu contraponto equilibrando um pouco tudo que já recebi de bom até hoje.

Hoje, 27 de agosto de 2014, eu já não penso “quando eu tiver 38, 40, 50”.. completo meus 35 anos em uma crise típica de fechamento/começo de mais um ciclo de 7 – sabendo que nada e tudo é certo ao mesmo tempo, me sentindo minúscula diante da imensidão da vida e gigante ao perceber que faço parte dela.
Chego aqui certa de que não estou sozinha nem nunca estarei e de que nessa encarnação tenho infinitamente mais motivos pra me alegrar do que pra me entristecer.
Faço, enfim, 35 com aquela conversa de 10 anos atrás se atualizando na minha cabeça:  “(…) Você vai querer ter mais de um?”, “Gostaria muito, mas não sou eu quem decide”. 


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P.S.: Dia de aniversário é dia refletir, é dia de agradecer por mais um ano, pela vida linda que tenho, pela saúde… e, depois de ter me sentido tão sozinha, pelas pessoas incríveis que me cercam e por todo carinho que recebi nos últimos dias; por ter, há 35 anos, nascido no meio de uma família tão especial.
Mas acima de qualquer uma dessas coisas nesse aniversário eu agradeço por ter ao meu lado o super herói da foto aí de cima, pelos esforços infinitos pra me ajudar a me reencontrar; pela força, paciência e compreensão que talvez nem ele soubesse que tinha; pelo eu amo você honesto mesmo quando eu não mereço; obrigada por salvar meu mundo dia após dia.

Parte 2, depois que a luz se apagou

*Post continuação do anterior

Antes de passar por esses dois últimos abortos eu não fazia ideia do que era isso. Quando a gente escuta que alguém “perdeu o bebê” (o que, btw, eu acho um termo muito estranho e que coloca ainda mais culpa na mãe) dá a impressão que a gravidez foi interrompida e pronto, acabou ali. Ninguém conta que você fica abortando, no gerúndio, que isso dura vários dias, ou que, no caso de um aborto retido como esse meu último, pode levar muitas semanas até que alguma coisa aconteça.

Se não fosse aquele ultrassom sabe Deus quando eu ia ficar sabendo que o bebê já não estava mais vivo. Meu corpo continuou pensando que estava grávido como se nada tivesse acontecido. Minha consulta com o ginecologista foi só uma semana depois e até lá tudo continuava igual, todos os sintomas da gravidez continuavam aqui.
Depois do choque inicial da notícia eu entrei em uma espécie de “limbo”, não estava nem lá nem cá… poderia também chamar de um estado de espera. Nada acontecia mas eu sabia que poderia acontecer a qualquer momento e sabia que seria terrível – já tinha tido uma amostra das dores no outro aborto e esperava que esse, por ter acontecido numa fase mais avançada da gestação, fosse ser bem pior. Também já tinha sido avisada de que teria aquela queda repentina de progesterona que deixa a gente meio louca e meio deprimida como no pós-parto. Essa fase de espera, ainda grávida e sob efeito dos hormônios mas com aquela imagem do bebezinho sem a luzinha do coração piscando ainda viva na cabeça me deixou meio anestesiada, era como uma calmaria precedendo a tempestade. Ou talvez eu tivesse recebido uma chance de me preparar pro que estava por vir. Então sempre que podia (com uma criança de 2 anos em casa não sobra muito tempo) eu lia sobre o assunto, sobre as opções do que fazer… e meditava, meditava, meditava.

Cheguei ao médico já decidida mas ouvi ele dizer minhas três opções (como quase tudo aqui na NZ, é o paciente que decide o que quer fazer):
1. Esperar e deixar que meu corpo agisse naturalmente – isso poderia acontecer no dia seguinte ou ainda demorar muitas semanas, eu sentiria dor, algumas contrações e meu corpo expulsaria tudo que estava dentro do útero… e ainda corria o risco de sofrer uma hemorragia;
2. Tomar um remédio pra acelerar esse processo – o que tiraria a dúvida do quando, a angústia da espera, mas aumentaria (e pelo que li por aí, aumentaria muito) a intensidade da dor;
3. Fazer o que eles chamam aqui de D&C (dilation and curettage) – tomar uma anestesia geral, dilatar o colo do útero e fazer um curetagem, retirando tudo que está la dentro.

Eu não queria ficar esperando, queria que isso acabasse de uma vez, e também não queria ficar morrendo de dor e expulsando todo tipo de coisa de dentro de mim por horas e dias. Não vi a menor vantagem nas duas primeiras opções, mesmo sendo mais “naturais”. Já passei por várias cirurgias e já tomei inúmeras anestesias gerais na minha vida, então disso eu não tinha medo. Decidi pela curetagem e o médico me ganhou quando pulou toda a burocracia de fila de espera e disse: já que você vai estar lá no centro cirúrgico e anestesiada, por que já não fazemos a laparoscopia e tiramos sua dúvida de endometriose tudo de uma vez?

Quatro dias depois (11 depois do último ultrassom e provavelmente mais de 3 semanas depois do bebê ter parado de se desenvolver) eu continuava me sentindo como se ainda estivesse grávida. Entrei no hospital de manhã e saí de tarde. O médico veio me dar as boas notícias: foi tudo bem com a curetagem e olharam tudo lá dentro da minha barriga – trompas, apêndice etc – e não acharam nada de errado, posso desencanar da hipótese de endometriose e estou pronta pra tentar de novo, disse dele.
Voltei pra casa cheia de dores musculares – consquência da laparoscopia – nos dois ombros, embaixo das costelas… e, surpreendentemente, nenhuma cólica. Pensei então é isso, acabou. Rá! Quem me dera…

No dia seguinte, umas 24 horas depois de sair da cirurgia, comecei a sentir cólicas que em menos de 5 minutos se transformaram em contrações tão fortes quanto as de um trabalho de parto. Só não digo que foi igual porque no trabalho de parto você tem o bebê ali te ajudando… e você tem uma força absurda que vem do além… e apesar de doer pra caramba você não está sofrendo porque sabe que é seu bebê que está nascendo. Agora era só a dor, pura e simples dor, tão intensa que quase me fez desmaiar e eu caí ajoelhada no chão sem força pra ficar de pé. Num intervalo entre uma contração e outra consegui levantar e fui até o quarto… deixando o Theo na sala com o Fe – era hora do almoço. Deitei na única posição que as dores musculares permitiam e fiquei ali, de costas, estátua, concentrada ao máximo, quase meditando, respirando, esperando a dor passar. Depois de uma hora passou e meu corpo expulsou alguma coisa que ainda tinha faltado. Ufa, ainda bem que não demorou o mesmo tempo de um parto.
Seis horas depois aconteceu a mesma coisa, igualzinho. E antes que chegasse na sexta hora seguinte eu tomei um monte de remédios pra tentar evitar sentir aquilo de novo. Senti só umas cólicas e depois fui melhorando…

Nesse período de recuperação o Felipe e o Theo cuidaram tão bem de mim que cheguei a questionar se eu também cuidava deles assim quando não estava doente. O Fe cuidou do Theo e preparou todas as refeições. O Theo, por sua vez, cuidava pra não apertar minha barriga e não exigiu minha presença como ele normalmente faz. Alguns dias depois que voltei do hospital ele levantou minha blusa, viu o curativo no umbigo e disse não tem mais neném. (não, ninguém tinha contado nada pra ele.) Agora eu não precisava mais deixar a questão em aberto… não, filho, não tem neném aqui. Ele nunca mais tocou no assunto.

Lembro de acordar no domingo de dia dos pais sem nenhuma dor pela primeira vez em muitos dias. Sem dor eu era outra pessoa. Fez um dia lindo de sol no meio do que tem sido um inverno tenebroso por aqui e passamos o dia todo na rua. Nem café da manhã tomamos em casa. Passeamos por uma floresta, Theo brincou em um parquinho novo, passamos um tempo jogando pedras num rio incrivelmente lindo que tem aqui perto com as montanhas cheias de neve ao fundo. Foi revitalizante pra família inteira.
Aí quando achei que tudo estava quase acabado, na segunda-feira as contrações voltaram, tudo igualzinho.. por uma hora.. mas por sorte dessa vez eu já estava na cama e também já não tinha mais as dores da cirurgia e conseguia me virar. Essa foi a última vez.

Isso também ninguém tinha me contado, que mesmo com a curetagem podia acontecer do meu corpo se ligar mais tarde do que aconteceu e resolver agir do mesmo jeito… (talvez pela queda dos hormônios? sei lá.). Ou que poderia ainda ficar alguma coisa lá dentro – eu achava que eles tirassem tudo. Mas li que, apesar de não ser regra, é comum isso acontecer. E pensei que se ainda tinha alguma coisa lá, melhor que meu corpo expulsasse mesmo do que ter alguma complicação depois. Nem cheguei a voltar ao médico – já está mais do que provado que eu não posso controlar nada mesmo, resolvi confiar na natureza.

No hospital recebi panfletos sobre ajuda a mulheres que sofrem miscarriage. Entre as dicas pra aliviar a dor da perda tinha plantar alguma coisa ou fazer uma despedida. O Felipe queria quer me ajudar de todas as formas e perguntou se eu não queria fazer uma dessas coisas… Li um texto de uma mãe que plantou uma árvore e, sem ter um bebê pra enterrar, percebeu a ironia do ciclo da vida enquanto cavava o buraco onde ficaria sua arvorezinha. Eu não tive vontade de fazer isso, sei que não vou morar nessa casa pra sempre e não seria legal deixar essa planta pra trás. Também não quis fazer despedida, não há como se despedir de alguém que já não está mais aqui.

Em vez disso resolvi escrever. Escrevendo eu consigo organizar meus pensamentos (ou ao menos tento). Colocar “no papel” me faz encontrar palavras que presas dentro da cabeça não se conectam. E foi pra chegar no próximo texto que escrevi esses dois últimos posts, porque precisava contextualizar primeiro… além de ser uma forma de lembrar depois como as coisas realmente foram, já que tenho a tendência a apagar da memória as partes ruins de tudo que me acontece. É lá que eu quero chegar, na minha terapia da escrita, cavando sentimentos, valores, crenças, dúvidas… quando conseguir enfim fazer as palavras mais difíceis se conectarem.

Everything is different the second time around

Nunca foi tão difícil começar um post antes. Assim como nunca foi tão difícil começar o dia antes do Theo acordar ou dormir antes de bater o desespero que dali a 4 horas eu vou ter que estar acordada de novo. É estranho isso… de não querer sair da cama mas ao mesmo tempo não conseguir dormir.

Eu tinha na minha cabeça um post prontinho – escrito, revisado e com foto -, mas que, por muito pouco, nunca saiu dela. Era um post de agradecimento, de amor e de muita alegria.

Nele eu dizia (na verdade digo agora!) um muito obrigada gigante a todos que comentaram aqui no último post do blog, ou no facebook ou vieram me falar diretamente os desejos de “fica bem, estou torcendo por vocês!”. Eu dizia “vocês são incríveis! obrigada pela energia que me mandaram… deu certo!”. Teria uma foto do ultrassom de 12 semanas e então eu contava como tudo estava sendo tão mágico quanto foi com a gravidez do Theo.

Nos 2 meses seguintes depois que voltei do Brasil eu continuei sentindo dor no mesmo lugar que doía quando descobri a gravidez ectópica, além de cólicas insuportáveis durante a menstruação, muito mais sangue do que eu geralmente tinha e dor durante a ovulação – comecei a desconfiar que estava com endometriose, que era isso que podia ter causado a ectópica e fui ao médico. Fiz um monte de exames de sangue, ultrassom etc .. nada de errado até que decidi passar por uma videolaparoscopia pra investigar se tinha mesmo endometriose ou não (o único jeito de diagnosticar endometriose é operando e olhando lá dentro mesmo!). Fazendo tudo pelo sistema público daqui da NZ eu fiquei numa lista de espera pra cirurgia que poderia demorar de 3 a 5 meses.

Como eu disse pro médico que estávamos querendo engravidar (e por causa dos meus ovários policísticos) ele pediu também exames pra avaliar o nível de progesterona e ver se eu estava ovulando. O mesmo exame que eu fiz quando fui na clínica de fertilidade antes de engravidar do Theo – um no dia 21 do ciclo e o outro no dia 3. Fiz o do dia 21 e, igual foi com o Theo, não teve dia 3 porque a menstruação nunca veio. Eu estava gravidíssima e sabia que dessa vez era pra valer!

Foi tudo muito igual à gravidez do Theo – fiz o teste já sabendo que ia dar positivo, eu sabia o dia exato que tinha engravidado e sentia que tinha mais alguém aqui comigo. Desde a última (desastrosa) essa levou 3 meses pra acontecer também. Eu ficava pensando no que uma amiga querida me disse no Brasil, logo que passei pelo aborto da ectópica: dizem que essas coisas também acontecem pra nos limpar… não só o corpo, começar zerado, mas a alma também. Isso parecia tão verdade nesse momento… 3 meses depois eu estava grávida – de verdade! – e não tinha dúvidas, não tinha aquele medo que tive da última vez.

Com o Theo eu sempre soube que era um menino, dessa vez eu até queria mais um menino mas me peguei sentada na cama do Theo, olhando o quarto dele e pensando: como eu vou fazer pra arrumar esse quarto meio pra menino e meio pra menina? Minha intuição era mais forte que minha vontade, eu sabia que vinha uma menininha agora.

Por causa do risco de outra ectópica fui ao médico no mesmo dia que tive o resultado positivo, fiz todos os exames iniciais e marquei o primeiro ultrassom pra semana seguinte. Estávamos com a viagem pro Sri Lanka marcada pra dali a 10 dias – passagens compradas, irmão, cunhada e sobrinho já estavam lá nos esperando, Theo e Felipe na maior expectativa da viagem. Eu estava com 5 semanas e sabia que era muito cedo pra ver os batimentos cardíacos no ultrassom, marquei pro último dia antes da viagem na esperança de ver alguma coisa, qualquer coisa, que me deixasse viajar tranquila. Fui sozinha fazer o exame enquanto o Fe cuidava do Theo em casa, não vi o embrião mas vi o saco gestacional, dentro do útero. Melhor do que da outra vez que não vi nada, pensei. Com o resultado do scan na mão, a Clare – minha amiga, vizinha e midwife – falou com o ginecologista-obstetra que ela mais confia aqui e ele disse que era muito improvável que eu tivesse uma gravidez ectópica dessa vez… mas deixou claro que, como qualquer outra gravidez, o risco de aborto espontâneo ainda existia, evidentemente. E assim eu decidi não estragar as férias da família inteira e ir viajar… seriam só 15 dias, na volta eu já estaria com 7 semanas e meia e faria outro ultrassom.

Voltei com todos os sintomas de uma gravidez de 7-8 semanas: peitos cada dia mais sensíveis e maiores, enjoo cada vez pior também, tontura, pressão baixa, fome o tempo todo, intestino preso… enfim, tudo que uma grávida “radiante” pode sonhar.😛

Fui sozinha de novo fazer o segundo ultrassom, apesar de saber que estava tudo certo era impossível não ficar apreensiva com a possibilidade de ver a mesma cena de 4 meses atrás e não achar coração nenhum batendo ali. Então foi muito emocionante quando vi aquela luzinha piscando na tela. Uma castanha de caju miudinha com uma luzinha piscando no meio… igual eu me lembrava de 2 anos atrás… e eu fui tomada por aquele amor maior que eu mesma de novo. Perguntadeira e detalhista que sou, quis saber qual era a frequência dos batimentos cardíacos – 105. 105? isso é meio baixo, não? É normal quando é bem novinho, disse a radiologista meio com pressa, estimando que minha gravidez tinha 2 semanas a menos do que eu achei que tivesse. Então eu estaria com 6 semanas e meia e não 8, como eu imaginava. Achei estranho, mas enfim… deve estar certo. Chegando em casa fucei no google e vi que os batimentos a 105 eram mesmo relativos a 6 semanas e pouquinho, então fiquei mais tranquila.

As 2 semanas seguintes foram terríveis… os enjoos aumentaram, eu não tinha força/energia pra fazer absolutamente nada, sentia todo tipo de dores no corpo e a família inteira ainda pegou uma gripe daquelas que te derrubam e você só levanta 10 dias depois porque precisa comprar mais lenços de papel. Eu xingava o mal-estar da gravidez mas sabia que no fundo era melhor isso do que não sentir nada e começar a desconfiar que tinha algo errado. Conforme fui me aproximando das 11 semanas (pelas minhas contas) eu fui melhorando. Fizemos uma primeira consulta “oficial” com a Clare, dessa vez o Fe foi comigo e ela aconselhou que eu fizesse mais um ultrassom pra tirar essa dúvida das datas… porque não fazia mesmo sentido, tanto pelas nossas contas quanto pelo andamento dos meus sintomas, e não queríamos perder a semana certa de fazer o scan de 12 semanas, da translucência nucal.

Eu tinha tanta certeza que estava tudo certo que logo que tive o resultado positivo minha vontade foi de sair contando pra todo mundo! Mas me segurei e esperei ver que o baby estaria lá mesmo, com o coração batendo e no lugar certo. Com o resultado do segundo ultrassom eu pensei oba! agora vou poder contar! Mas o Fe preferiu esperar mais um pouco ainda… até as 12 semanas, imaginei. Eu precisava falar com mais gente e combinei com ele que então eu falaria só pras pessoas mais próximas – amigas/família que participam da minha vida, que fazem parte do meu dia-a-dia, que se interessam e mantém contato comigo se não todos os dias, quase. Então contei pra poquíssimas pessoas – meus pais, meus irmãos e 5 amigas. Ajuda o fato de estarmos vivendo numa cidade nova onde conhecemos quase ninguém. Se alguém viesse me perguntar eu também não mentiria e assim fiz. Mas o Fe, no que dependesse dele, manteve o assunto só entre nós dois, já estávamos tão perto das 12 semanas mesmo!

Conforme o tempo passou e as coisas continuavam evoluindo bem, mais a gente falava no assunto. Falamos em nomes, em possíveis padrinhos, no quarto, no orçamento e possíveis viagens (ou não-viagens agora com 4 passagens), fiquei feliz que ia nascer no verão, combinamos a vinda dos meus pais pra cá e comentamos que a diferença de idade com o Theo seria ótima… tirei fotos da barriguinha que já se sobressaía um pouco e compartilhei com o Fe através de um aplicativo no celular que ele me indicou e nós dois usávamos pra acompanhar a gravidez.

Não contei pro Theo, mais pra gerenciar as expectativas dele do que qualquer coisa, mas fui preparando o terreno… falava sempre de outras crianças que ele conhece e que tinham recém ganhado um bebezinho em casa, explicando que a mamãe agora cuidava dos dois, tentava mostrar pra ele o que é ter um/a irmã/o. Várias vezes ele olhou pra minha barriga e perguntou: tem neném?, eu respondia com outra pergunta: tem?, ele desbaratinava.

No dia do ultrassom pra verificar as datas o Felipe tinha ido passar o dia na montanha (a 4 horas daqui) fazendo snowboard com um amigo. O Theo estava na escola e eu fui, de novo, sozinha. A clínica que fiz todos os scans fica em outra cidade, a uma hora de viagem daqui, passando por uma serra bem chatinha de dirigir – aqui tem também, mas lá é melhor. Cheguei um pouco mais cedo porque se precisasse já fazer o exame de translucência nucal no mesmo dia ia demorar mais e eu precisava voltar em tempo de buscar o Theo na escolinha. Demoraram pra me atender, eu comecei a ficar ansiosa, comecei a lembrar da última vez que tinha estado lá e daquele “105”. Ao entrar eu já estava muito mais ansiosa – coisa que eu não sou normalmente, nem mesmo grávida. Minha lembrança é de entrar naquela sala escura como quem entra em um pesadelo e não consegue mais sair.

A primeira imagem que apareceu na tela, ainda desfocada e bem de longe já me disse tudo. Aquele bebê era muito pequeno pra ter 11 semanas, ou mesmo 9. Minha vontade era pedir pra sair e começar tudo de novo, mas eu esperei. Esperei a radiologista, uma senhora com idade pra ser minha mãe ou minha tia, aproximar a imagem e esperei pra ver se aparecia alguma coisa. Eu pude ver a cabeça, os bracinhos e as perninhas… mas a luzinha piscando já não estava mais ali. There’s no heartbeat, eu disse bem baixinho. Ela ligou algo que mede os batimentos – aquilo que aparece um linha tipo um gráfico – e a linha apareceu reta, mais uma tentativa e mais uma, sempre reta. I’m sorry my dear, ela disse com uma voz de quem parecia querer me abraçar mas não podia.

O exame ainda demorou mais alguns minutos e eu esperei… pra que ela pudesse fazer um laudo mais detalhado, só imaginei, pois a essa altura eu já não fazia mais perguntas, eu fiquei muda e só queria sair dali. Mesmo sem ter derrubado uma lágrima, ela tentou me convencer a não dirigir, mas eu não tinha opção, faltava pouco mais de uma hora pro Theo sair da escola e eu precisava voltar. Passei reto pela recepção aliviada por não terem me perguntado se eu queria o dvd do ultrassom como eles sempre perguntam e só me permiti chorar depois de entrar no carro e fechar a porta.

A Clare, sendo minha midwife, recebeu a notícia logo em seguida e me ligou; eu estava na estrada e não pude falar… tive mais uma hora só minha dentro do carro, chorando e me culpando – por ter viajado, por ter comido alguma coisa que não devia e eu nem sabia o que, por ter ficado doente, por ter levantado o Theo no colo, por ter reclamado dos sintomas ruins, por tudo, eu não devia ter viajado… eu tive a opção de não ir e fui mesmo assim, era tudo culpa minha, só podia ser  -, me perguntando por quê? por quê? por quê?, me achando uma idiota por ter confiado numa intuição furada, me perguntando se não era pra ser por que viemos até aqui? por que não parou lá atrás bem no comecinho? eu precisava passar mal do jeito que passei no último mês? … e por que meu corpo não me avisou, não deu nenhum sinal? eu ainda me sentia grávida! … e me esforçando pra, no meio daquele turbilhão, tomar cuidado extra na estrada pois com o Fe viajando o Theo não tinha mais ninguém pra cuidar dele hoje.

Cheguei em casa e retornei a ligação da Clare, a conversa com ela não durou 15 minutos mas já tirou boa parte da culpa que eu estava me colocando, ela me explicou que quando acontece desse jeito é geralmente um problema com aquele bebê e não comigo nem nada que eu tenha feito, nas palavras dela a mãe natureza olha esse feto e diz “algo não está certo aqui” e pára já logo no início. Lavei o rosto e fui buscar o Theo, fomos jantar fora, cuidei dele e não chorei mais até o Felipe chegar e o Theo dormir bem mais tarde. Nem mesmo quando minha mãe ligou no skype querendo saber o resultado da eco; com meu pai, Duda e Drica junto já contei pra todos de uma vez, entre brincadeiras, risadinhas e abraços do Theo, continuei sorrindo enquanto dava a notícia mais triste da minha vida.
Nunca tive tanta certeza de ter um anjo (não só de alma, mas de carne e osso) do meu lado.

Isso foi dia 24 de julho, quase um mês atrás. Deixo pra falar das semanas seguintes e de outras coisas que eu lembrar no próximo post. Já está tarde por aqui e preciso tentar dormir porque de manhã eu acordo com um pequenino chamando mamãããeee, Theo acordou! e quando eu digo ooooi, Theo, pode vir aqui o anjinho responde não, mamãe, vem aquiiii!, me obrigando, todos os dias, a sair de dentro da nuvem cinza que se instalou em mim pra entrar no mundo de luz que ele traz com ele.

2 – 1 = 3

Escrevo hoje o que eu queria ter escrito logo que voltei do Brasil, um mês e meio atrás. Queria ter podido contar, antes mesmo de voltar pra NZ, pra todas as pessoas importantes na minha vida por que eu fiquei um mês inteiro no Brasil e não passei mais ou nenhum tempo com elas.

Antes de tudo o que aconteceu, o título desse post era só um número e não uma equação matemática. Meu post comemorativo se chamaria “Dois” – falando dos dois anos do Theo, da festa com a família no Brasil e sobre ser mãe de dois filhos.
Pois é isso mesmo!, eu cheguei em Curitiba grávida e a primeira semana de Brasil foi só alegria (e fome, muita fome!).
Eu descobri a gravidez ainda na Nova Zelândia, repeti o teste no Brasil: positivíssimo! – sim, nós queremos ter mais um filho e sim, foi planejado! Comparado com o Theo, que eu levei só 3 meses pra engravidar, esse até que demorou bastante – foram 11 meses de espera.
Pelas minhas contas eu estava de 6-7 semanas.

Viajamos pra Floripa e Garopaba visitar amigos, tudo indo conforme o planejado até que eu senti algumas dores mais fortes do que deveria, na volta pra Curitiba tive um sangramento mais vermelho do que poderia e na consulta com a ginecologista, dois dias depois, não vi o coraçãozinho batendo como gostaria.
Tinha três possibilidades: 1) ainda era muito cedo pra conseguir ver, 2) eu já tinha perdido o baby ou 3) era uma gravidez ectópica (fora do útero).
Só a primeira era boa e a terceira era a pior. Eu apostava na segunda.
Era quinta-feira, véspera de carnaval, a recomendação foi repouso absoluto e fazer um exame de sangue B-HCG. O único resultado bom seria abaixo de 1000, sinal de que poderia ainda ser muito cedo. Deu 996. No limite!
Mais repouso, tomar progesterona e repetir o exame na segunda-feira.

Esses cinco dias foram a maior montanha-russa emocional da minha vida, primeiro o choque inicial de não ver o embrião, depois o resultado animador do exame de sangue e nos dias seguintes qualquer sensação diferente no corpo me deixava otimista ou pessimista de hora em hora – era o sangramento que tinha parado – oba!; depois mais umas gotinhas – droga.; mas é sangue escuro, então não tem problema, e to sentindo os peitos mais sensíveis, oba de novo!; passou a sensibilidade – é, acho que já perdi… E assim foram c.i.n.c.o. dias enlouquecedores, nonstop. E eu só podia levantar da cama pra ir ao banheiro… com um toddler em casa… right.

No dia de fazer o segundo exame o pessimismo realismo bateu e o número só confirmou o aborto que eu já pressentia. De repente acordei já não sentindo mais nada. Passou a fome, passou a sensibilidade nos seios, passou tudo. Fui cedo pro laboratório e só esperei a confirmação que chegou de tarde.
Foi triste, bem triste… mas não fiquei nem estou deprimida. No fundo eu sempre soube… desde o dia que fiz o primeiro teste, ainda na NZ, que, apesar de estar querendo muito e esperando há tanto tempo por isso, quando vi o segundo risquinho aparecer comecei a chorar com medo, muito medo ao invés de felicidade, eu só ainda não sabia do quê.
Mas agora bola pra frente – pelo menos eu estava liberada do repouso e podia seguir encontrando as pessoas que eu queria tanto passar um tempo junto. Só que eu sentia dor (de vários tipos) e a terça-feira de carnaval foi meu dia de “luto” e de resolver umas últimas coisas ainda em Curitiba, na quarta eu iria pra praia.

As malas já estavam no carro quando as contrações bizarras que eu sentia me fizeram falar com a minha médica que, das férias dela, me atendeu e me mandou correr pra emergência do hospital ecografar. “Sério???“, eu disse. Na verdade eu só queria que ela me dissesse que eu podia ir pra praia tranquila, que era normal sentir dor assim quando se está abortando.
No laudo da eco diz: “sugestivo de gestação ectópica”. Aqui eu descobri do que era aquele medo lá no comecinho.
A médica plantonista do hospital queria que eu ficasse internada naquela hora mesmo e eu vi a preocupação no rosto dela e da minha mãe quando eu disse que não, que eu iria pra casa ficar com meu filho pequeno que ia fazer aniversário. Se tem alguma coisa que aprendi com essa história toda foi a confiar na minha intuição acima de qualquer coisa!
[por sorte não foi nenhum policial bater na porta da casa da minha mãe com mandato de oficial de justiça pra me levar de volta pro hospital porque eu corria risco de morrer!]

Não morri e no dia seguinte fui no laboratório bem cedo. O terceiro B-HCG indicou um aborto tubário, o que a essa altura já era uma notícia boa.
Na semana seguinte outra ecografia confirmou que a massa que vimos antes perto do ovário direito estava diminuindo sozinha, ufa, se tudo continuasse correndo “bem”, não precisaria de nenhuma intervenção.
Antes de pegar o avião de volta uma última eco mostrou que tudo havia desaparecido e eu já estava pronta pra outra. (Ou quase.. mas isso é assunto pra depois.)

E assim foram quatro semanas de Brasil que se transformaram em uma e meia; que eu atravessei meio mundo pra chegar lá e não consegui colocar a conversa em dia com minhas amigas mais próximas nem reencontrar a maioria dos meus amigos, que eu não pude participar dos churrascos, bares, shows, encontros e visitas que aconteceram, que eu não levei o Theo pra passar mais tempo com os avós paternos como eu pretendia… mas que eu agradeci cada segundo por estar lá e não aqui, por estar em casa, por ter meus pais e minha tia/madrinha, mais uma vez (!!), ajudando a cuidar de mim e agora também do Theo, dando uma folga pro Felipe pra que ele também pudesse ficar comigo, ele que está sempre do meu lado, no matter what <3; por ter recebido o melhor tratamento possível da minha médica.
As poucas pessoas que vi e o tempo que passei com elas foi, como sempre, inesquecível.

Fomos com dois filhos e muitas mudanças em vista. Um dos filhos, ainda pequeno demais pra que eu pudesse pegar pela mão, se perdeu pelo caminho. Voltamos os três pra nossa nova casinha no campo, enfim ficando aqui além de dois meses seguidos desde que compramos a casa em dezembro, no interior da Nova Zelândia, longe de todos, mais só nós três do que nunca.

Theo2anos

10 de março de 2014

P.S.: Hoje é dia das mães e aproveito pra deixar registrado o OBRIGADA que eu já disse mil vezes pra minha mãe mas que na verdade não existe palavra alguma que consiga definir o tamanho da minha gratidão. Todos os dias, pra sempre. Por tudo o que você faz por mim. Todos os dias, desde sempre. Mas especialmente no dia em que você me ligou dizendo “venha ficar comigo aqui na praia, tem passagem em conta pra semana que vem!”, como se sua alma já soubesse. E eu fui, como se minha alma também soubesse. Obrigada por ser a melhor mãe-anjo do mundo. Eu sou a filha de mais sorte do mundo.

18 meses e a minha primeira carta pro Theo

Pikotico,

Desde que você nasceu que penso em te escrever e falar um pouco de você da gente pra que você possa ler mais tarde. Me enrolei 18 meses pra escrever a primeira carta, então senta aí que essa vai ser longa.

Você acaba de completar um ano e meio e me parece, na minha profunda ignorância sobre assuntos infantis e opinião puramente baseada nas nossas vivências aqui em casa, que 18 meses é pra um bebê como 18 anos é pra um adolescente. Completar 18 meses está sendo mais significativo pra mim do que quando você completou 1 ano. Só agora eu sinto as coisas mudando de verdade e tenho o tempo todo a sensação que estão prestes a mudar muito mais! Você está com um pé de cada lado, virando um menininho lindo e deixando de ser bebê; como um adolescente, tem horas que você já parece ser muito independente mas tem outras que chora e quer colo – às vezes me pergunto se você sente o mesmo frio na barriga que eu sentia quando tinha 18 anos.

Eu sou completamente apaixonada por você desde o primeiro instante que te vi e arrisco dizer que seu pai também é (e você por ele). Quando você fez 6 meses lembro de ter pedido pro tempo ir mais devagar, eu não queria que ele passasse tão depressa, eu não queria que você crescesse assim tão rápido, eu queria congelar a gente ali, daquele jeitinho, em Bali mesmo. =) Mas o tempo não me obedeceu e continuou acelerando.
Quando você estava perto de fazer um ano eu agradeci ao tempo por não ter parado… que delícia que é essa idade!! Você começou a se comunicar melhor e tudo que você fazia era a coisa mais fofa do universo. T.u.d.o., todos os dias, o tempo inteiro, durante uns 2 ou 3 meses.

Com 15 meses perguntei pra sua nurse da Plunket se nessa idade já era possível que você estivesse tendo os famosos temper tantrums dos terrible twos – não se preocupe, não é só você… eu descobri que toda criança passa por isso, não só aquela que de vez em quando a gente vê se jogando no chão do supermercado. Ela me respondeu “definitely” com uma certeza assustadora. Pois é… foi nessa época que você, sempre tão calminho, começou a fazer uns mini-escândalos quando era contrariado ou quando ficava frustrado por algum motivo. Mini porque até agora tem sido tranquilo lidar com isso, você chora quando quer alguma coisa que não pode ter ou quando fica muito frustrado, às vezes grita, mas isso dura poucos minutos e logo eu te distraio você se distrai com outra coisa. Já não posso mais dizer que você é fofo 100% do tempo mas ainda é uns 90% e quando é, é cada dia mais!

Você quer nos imitar em quase tudo que fazemos. Adora o aspirador de pó, aponta pro armário onde ele fica guardado dizendo “uuuuu!” (o barulho que ele faz), já sabe montar as peças e fica passando no chão, desligado. Quando está ligado você monta em cima dele como se fosse um cavalinho ou empurra pela casa como se fosse um carrinho. Apesar de nunca ter me visto usando uma vassoura você também adora varrer a cozinha. Quando estou cozinhando você quer ajudar, coloca (todas) as tábuas em cima do balcão e começa a trazer coisas para serem cortadas – cebola, alho, limão, maçã… o que estiver ao seu alcance heheh – depois pega uma panela e uma colher e fica mexendo sua comidinha imaginária – isso, claro, depois de tirar todas as outras coisas dos armários e gavetas e espalhar pelo chão da cozinha; às vezes você guarda uma parte de volta, sempre no lugar certo. Aliás, você é super observador e sabe o lugar de todas as coisas da casa – especialmente as chaves, que precisam estar sempre penduradas no lugar delas (papai e mamãe não aprendem!). Você também imita o papai, colocando uma sacola plástica no pé pra vestir a roupa de borracha ou tentando andar pela casa com os sapatos e roupas dele.

Hoje eu li num site que a maioria das crianças da sua idade já fala pelo menos umas 12 palavras. Eu conheço algumas que falam muito mais que isso… mas não é o seu caso. Você sempre foi mais quietinho (não era daqueles bebês que ficam tagarelando bebezês) e hoje ainda fala muito pouquinho. Nos últimos dias parece que começou a se interessar mais por aprender a falar, pedindo pra dizermos o nome de alguma coisa repetidas vezes enquanto você presta a maior atenção olhando pros movimentos da nossa boca; algumas vezes você tenta repetir, na maioria das vezes não – eu e o papai achamos que você é perfeccionista igual a mamãe e não quer arriscar falar errado. Em compensação você adora imitar os sons dos bichos, das coisas ou barulhos esquisitos que fazemos de palhaçada – todos esses você aprende rapidinho e repete bem certinho… o que me faz pensar que você não tem dificuldades pra falar nem pra ouvir, você só não tem interesse mesmo… porque você fala cocóóóó pro galo mas não fala cocô quando quer ir ao banheiro. Apesar de ter um vocabulário bem pequeno você consegue se fazer entender muito bem! Nós te ensinamos alguns sinais da baby sign language e outros você mesmo inventou, você aprendeu absurdamente rápido e usa todos direitinho; quando não tem sinal você tenta imitar o som, faz alguma mímica ou nos leva até aquilo que você quer. É incrível ver como seu cérebro funciona e as associações que você faz pra se comunicar sem palavras; quando quer ir pra piscina, por exemplo, você faz o sinal pra trocar de roupa e imita o som do passarinho porque na sua roupinha da natação tem um passarinho desenhado.

A coisa mais fofa dessa semana é o seu jeitinho pra pedir música. Você pede sempre que percebe que não está saindo som da caixa e eu me derreto toda vez dizendo que preciso filmar! Primeiro porque acho encantador que você goste e peça pra colocar música (música “de adulto” mesmo, nunca tocamos música infantil em casa) e segundo porque pra pedir você aponta pra caixinha de som, diz “iiii” e dança balançando os bracinhos e a cabeça ao mesmo tempo, depois faz um gesto de “cadê?” com as mãozinhas e repete a dancinha. Sério, preciso te filmar pra você mesmo ver depois!

Você está começando a querer fazer as coisas sozinho – se vestir (e escolher a roupa!), escovar os dentes, pentear o cabelo, afivelar o cinto da cadeirinha… ainda não consegue nenhum desses direito mas com isso você começou a comer sozinho. Digo, com a colher ou o garfo, sem colocar a mão na comida, totalmente sozinho. Pra mamãe isso é um marco, talvez o maior desde que você começou a comer a mesma comida que a gente (esse sim um marco importantíssimo!) porque significa que podemos comer todos ao mesmo tempo. Tá certo que você só come o prato todo sozinho se você estiver com fome e gostar da comida, senão precisa de uma ajudinha, mas já é um mega avanço! Você ama frutas em geral e come várias por dia, no verão a fruta predileta era morango, agora é kiwi. Você gosta de sabores fortes – gostou de limão puro desde a primeira vez que provou e até hoje gosta, não se importa com pimenta na comida (divide um prato tailandês comigo na boa), come azeitona e adora pimentão. Você é curioso e sempre pede pra experimentar quando vê que tem alguma coisa nova no nosso prato. Também amou chocolate amargo e café preto quando provou (mas foi bem pouquinho, só porque você pediu muito e eu queria ver a tua reação, afinal você ainda é muito pequeno pra essas coisas). Em compensação não come queijo, só derretido… mas eu não te culpo, mamãe também só foi aprender a gostar de queijo frio depois de adulta.

Pra alegria da mamãe e do papai você sempre comeu e dormiu muito bem, desde que nasceu. Você geralmente dorme 11 horas por noite (das 9pm às 8am) e tira uma soneca de 2 a 3 horas depois do almoço. Você só não dorme na rua, precisa estar na sua caminha, gosta de ter sua rotina bem certinha… hoje você mesmo jogou o cobertor pra dentro do berço e pediu pra entrar quando chegou a hora da soneca. Você tem vários bichinhos de pelúcia que dormem com você além do Cuski, a naninha que você ganhou com 3 meses. Ultimamente você anda tirando o Cuski de dentro do berço e sai abraçado com ele pela casa… mas você sabe que o lugar dele é na cama e sempre leva de volta; nunca pediu pra sair de casa com ele.

Esses dias peguei o papai conversando com você e dizendo “sabia que você é muito bonzinho?”. E você é mesmo. Nunca vi você tirar um brinquedo das mãos de outra criança e se alguém faz isso com você a sua reação é quase sempre entregar o brinquedo, dar um passo pra trás e pegar outra coisa. Se era algo que você queria muito ou lutou muito pra conseguir, você se defende gritando, tentando assustar o outro, mas nunca agrediu ou tentou tomar o brinquedo de volta à força. Gosta de oferecer da sua comida pros outros e dá beijo na hora de dar tchau (coisa que os kiwis acham um pouco estranho mas a mamãe deixa porque afinal você é brasileiro).

Apesar de gostar de uma adrenalina você também precisa se sentir seguro e é cauteloso com atividades físicas, sempre pára na beira de um degrau pra se segurar ou pedir a mão. Às vezes até parece que você já passou da fase sem noção de se jogar sem saber dos riscos e aprendeu (você caiu da escada algumas vezes quando ainda engatinhava), mas eu sei que o pior ainda está por vir… principalmente se você quiser continuar imitando seu pai.

Você é bem desconfiado com estranhos. Em casa você é super risonho e brincalhão, mas na rua as pessoas demoram pra conseguir arrancar um sorriso seu e você nunca pega o que lhe é oferecido por um estranho, nem mesmo um brinquedo que você queria, e isso inclui adultos e crianças. Em compensação cachorros de todos os tamanhos podem pular em cima de você que você se abre inteiro – o que é totalmente compreensível pra mamãe, mas eu não entendo você também gostar de mosca, mosquito, mariposa… O seu bicho predileto continua sendo o tigre.

Você também não “foge” de mim quando estamos na rua, na praia ou no parquinho… é uma delícia sair com você porque você pode ficar brincando totalmente solto que eu sei que você está sempre de olho onde eu estou e sempre volta. Você é obediente e esperto, aprende rápido quando não pode fazer alguma coisa e não faz, ou ameaça fazer só pra provocar e fica só na ameaça dando uma risadinha sapeca. Tem total noção de quando eu digo que alguma coisa é de outra pessoa e não deve pegar.

Seu melhor amigo é o Caio, vocês se conhecem desde antes mesmo de nascerem e ele sempre gostou de você, mas só nos últimos meses que você começou a dar bola pra ele. Hoje em dia você pega o celular da mamãe, encontra a foto dele e diz “Ao! Ao!” sorrindo. Você reclama quando outra criança invade o seu espaço, mas se for o Caio você bate palminha. Os pais dele estão indo embora pro Brasil daqui a algumas semanas e ele vai junto… a mamãe já está com o coração apertado só de pensar na falta que ele vai fazer pra você.

Nas última semanas eu aprendi que você já tem noção de causa e efeito, antes e depois… então se eu digo “primeiro precisa fazer xixi, pra depois trocar de roupa e ir passear”, você colabora rapidinho e quando está tudo pronto corre pra porta. Você usa o tempo todo o “grande” e “pequeno”, abrindo os braços pra grande e falando “leilei” bem agudo pra pequeno, seja pra dizer que algo é daquele tamanho ou pra pedir pra cortar a comida que está muito grande. Você sabe contar até 4 (se eram 4 uvas e falta uma, você começa a procurar), 5 já viram “muitas” – que você faz o sinal com a mãozinha; sabe mostrar até o número 3 no dado, fazendo 1 com o dedinho e tentando fazer o 2 e o 3 com a mãozinha mas ainda não consegue. Está também começando a identificar algumas cores… esses dias apontou o ônibus que era amarelo igual a sua calça amarela e o sapo que era verde como uma das patas do hipopótamo multi-colorido que o Dindo deu.

Papai e mamãe adoram viajar e você já visitou 5 países e 3 continentes diferentes nesses 18 meses de vida – Nova Zelândia, Fiji, Indonésia, Brasil e Tonga. Nossa última viagem de avião foi pra Auckland, fomos só nós dois pela primeira vez e também pela primeira vez eu percebi que você entendeu que estava entrando no avião e voando. Até hoje quando você vê um avião passar você abre os braços dizendo que o avião é bem grandão.

Mamãe adora que você é do tipo que, ao invés de sair correndo na rua, vai parando a cada florzinha (“lilolilo!”, bem agudo) e pedrinha e conchinha que encontra no caminho. Você é paciente e sabe esperar – espera a hora que pode sair da cadeira depois de comer, espera quietinho no berço quando acorda (às vezes fica uma hora lá com seus bichinhos), espera a sua vez de subir no escorregador no parquinho, espera sempre que a gente pede pra você esperar um pouquinho. Mamãe na verdade adora tudo em você, eu continuo tão apaixonada quanto naquela primeira vez que te vi. Não, mentira, quanto mais eu te conheço, quanto mais a sua personalidade aparece, mais apaixonada eu fico. Já não peço mais pro tempo ir mais devagar, agora tá bom assim, desse jeitinho… eu já nem sei mais como era viver sem o seu beijinho de boa noite quando você tinha 6 meses e ainda não vinha encostar sua testa na minha olhando dentro do olho, segurando por alguns segundos, como você faz hoje.

Amo você além da vida, meu anjinho.
Feliz 18 meses.